quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Dia dos mortos.





É sem duvidas o dia dos mortos.
Impossível não transparecer alegria, tantos velhos conhecidos para rever. 
Corro o mais rápido que posso até o cemitério do vilarejo, já é meia noite, por certo estão todos lá.


A lua cheia ilumina todo o percurso, quase parece dia de tão claro.
Estou tão habituado a fazer esse percurso que já sei todos os obstáculos de cor.  
Salto ofegante por entre galhos secos, esquivando-me aqui e ali de arvores milenares. Havia uma estrada que dava acesso até o mesmo, mais aumentaria meu percurso em léguas, e o atalho pela floresta sempre me parecia mais desafiador. 


Por que fazer um cemitério tão retirado assim do vilarejo? Penso enquanto minhas pernas movem-se como o vento.
Mamãe dizia que era para deixar que os mortos realmente descansassem em paz. Longe de tudo e de todos. Fazia sentido.
Tão pouco me importava, para mim era até melhor, adorava me retirar para lugares abandonados. Explora-los então era uma aventura sem comparação.


Eis que ao longe já avisto o enorme portão de ferro, já à muito construído ali, seus sinais de milênios ao abandono dão um ar de mistério e terror.
A chave! Pensei comigo pela decima vez. Conferindo novamente se a mesma ainda estava pendurada em meu pescoço. 

Era meu dever aquela noite, e de todas nos próximos anos que viessem a seguir. 
Abrir os portões do grande cemitério, para que eles, pudessem andar livremente ao menos nesse dia concedido a eles.
E como eu estava feliz por poder fazer parte disso!
Nunca o imaginara. 


Ando agora mais vagarosamente, precisava e muito pegar um pouco de folego, a distancia era sem duvidas cansativa, mais sou jovem e saudável, gozando de meus poucos quinze anos.
Quase que instintivamente pego a chave novamente em meus dedos, recordando-me de meu propósito de estar ali.
O coveiro. Sim, por certo, ele também haveria de estar lá, e o veria em breve.

Fora ele que em certa tarde, isso a meses atrás lhe incumbira de tal tarefa,  explicando de sua doença e de seus poucos dias restantes de vida. Foi ele, que me encorajou e me mostrou a importância que nós, guardiões dos portões dos mortos temos.

Poderia acontecer o pior se os mantivesse presos, males impensáveis. Alertou-me o coveiro. 
Confesso que nos primeiros tempos essa ideia causava-me arrepios, mais com o tempo, algo foi me encorajando e me deixando mais confiante. 
E aqui estou, parado em frente ao grande portão de ferro, com a chave aposta, com um pouco de receio por ser minha primeira vez.


Respiro fundo, olho para a grande lua cheia a iluminar toda a floresta, por algum motivo, dentro do cemitério está uma escuridão sem fim.
Abro cautelosamente o grande portão, fazendo uma força tremenda, o mesmo está amaranhado de trepadeiras e encravado de ferrugem. Pronto, meu dever estava cumprido.


Tenho duas opções, correr de volta para casa, ou aguardar e matar minha curiosidade.
Impossível não demostrar uma cara de temor e espanto, lá estavam eles, vinham e passavam por mim, ali congelado de medo e admiração. Alguns param, me olham, com seus olhos vazios e sem vida. 
Nada me fazem, nada demostram, bizarros e assustadores. 

São milhares, nem eu imaginava que haviam tantos!
Um cheiro de podrido e morte exala no ar. 


É a noite deles, penso.
Caminho lentamente em direção a trilha para voltar para casa, já não há nada a ser feito ali.
Eles não me farão nada, posso ir despreocupado.

Ergo minha cabeça e vejo, parado a minha frente, som expressão alguma, o coveiro, parado em meio a trilha, inerte sob a luz do luar.
Percebo então, aquilo não era nada de especial. Os olhos dele me diziam tudo. Eram condenados, assim como todos os outros que viriam por morrer futuramente, como você e eu.


Um dia triste e de morte, era o que tudo aquilo representava.
Pobres condenados a sair de seu descanso e vagar por entre as coisas vivas. 
Talvez um dia, quando for a nossa vez, entenderemos o propósito disso, e até lá, a expressão vazia do coveiro e de todos os outros mortos seguirão em meus pensamentos.  

O vazio! 



Rogue - AS - 







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