Nossa história se passa nos meados de 1981, Serra Pelada, Brasil.
Meu
nome: Jorge da Silva Jr. Mais um entre tantos Jorges, Pedros, Robertos.
Gostaria de poder contar minha história, mais tão entediante é minha vida que
nem eu mesmo acho graça de contar de meu passado a meus próprios filhos, quem
dirá a vocês desconhecidos.
Aqui, nesse lugar esquecido por Deus, fácil perder a fé. Às vezes paro o
observo aquele mar de gente aglomeradas em tão pouco espaço, sujas de barro e
poeira, toda e qualquer semelhança com as formigas é enorme. “É a ganancia dos
homens”. Já dizia meu falecido pai, que também perdera a vida ano passado, como
tantos outros, em acidentes tão comuns nas minerações.
Na época falava-se em mais de trinta mil homens, mas estando aqui,
pareciam ser muitos mais. Homens de várias partes do país, de todas as etnias e
raças, crianças, jovens e velhos. E foi aqui, no meio de tantos homens
ambiciosos, mais esperançosos, que conheci o verdadeiro dono que a esta
história pertence. Seu nome ainda desconheço, só lembro que todos o chamavam de
filósofo. Acredito que todo mundo conhece em sua vida um “filósofo”, a pessoa
que entende sobre tudo na vida e sempre sabe prender a atenção de todos quando
está a contar suas histórias, verídicas ou não, mesmo assim fascinantes.
Filósofo era um jovem alto, bem diferente do padrão dos habitantes do
norte do estado, parecia-se muito a os gringos que conhecíamos dos filmes
americanos, loiro e dos olhos azuis quase brancos de tão claros. Sempre chamava
atenção de todos a noite, quando estava de banho tomado e com roupas limpas. E
como as mulheres o adoravam! Afinal, um jovem formoso e inteligente, perdido
naquele fim de mundo, á de ser admirado mesmo.
Confesso, que mesmo casado, nunca fui de desperdiçar uma boa rapariga.
Nosso estaleiro ficava por sorte perto de um rústico bar, onde eram comuns as
bebedeiras e jogatinas. Assim também como as brigas e as não tão formosas
jovens a enroscar-se a um e outro atrás de um dinheiro fácil, ou apenas algum
pagante de bebidas grátis. Por esse meu fraco por mulheres, foi que percebi que
fazendo amizade com o jovem protagonista dessa historia, eu havia certamente de
me dar bem com o mulherio.
Com o passar dos meses, filósofo acabou agregando muitos mais “amigos”
que uma pessoa normal faria. Começou ser tão comum mais de vinte ou trinta
pessoas sentar-se a noite ao redor de uma grande fogueira, bebendo goles da
amarga cachaça e fumando fedorentos cigarros feitos a mão mesmo com fumo ainda
molhado comprado na mercearia de seu Juca.
E como ele falava bonito! Pensava comigo enquanto escutava atentamente a
suas historias, sobre como conheceu um lobisomem autentico em um vilarejo de
nativos indígenas no coração da Amazônia, e como para os mesmos aquilo era tão
natural. De tempos em que trabalhara em um circo como tratador dos animais e
conhecera nosso país de canto a canto. Dos tempos que conhecera tropeiros ao
sul e como era fascinante cavalgar por léguas levando o gado, vez e outra ele
contava histórias que ouvira sobre lendas e aventuras que para nós que
morávamos tão longe ao norte do estado, jamais sonhara em deslumbrar. As vezes falava
sobre livros que lera no tempo que era seminarista em um colégio interno, sobre
religião de outros países, teorias de conspiração de presidentes e sociedades
secretas, vida em outros planetas, filósofos e teólogos, psicólogos e grandes
escritores nacionais e de fora do País.
Durante a longa jornada do dia, desde o amanhecer até o por do sol, ele
era quieto, focado. Parecia até mais um de nós ali, com a picareta em mãos,
cavando aqui e ali, também em busca de um milagre para mudar sua vida. Ele
mesmo contava às vezes o que faria quando encontrasse uma grande pedra de ouro
nas minerações. Nem tanto os planos do mesmo nos fascinavam, como o sorriso em
seu rosto, e aquele brilho em seu olhar.
Até mesmo o mais desesperado dos homens, muda seu estado de espírito
apos uma noite fascinante das historias do rapaz. E assim passou-se o tempo,
acredito ter sido anos. O numero agora de seguidores do mesmo era espantoso.
Nenhum de nós ou até mesmo o jovem (procuro acreditar que não soubesse) sabia
da repercussão que isso teria. Até mesmo uma equipe de televisão veio tempos
atrás e fez uma longa reportagem sobre o mesmo. Eles a chamaram de “a nova
religião dos garimpeiros”, onde se referiam a filósofo o novo pregador ou
pastor.
Ora, pois, o jovem nada mais fazia que contar histórias, mais com o
passar do tempo, as pessoas começaram a lhe procurar para pedir conselhos sobre
a vida, dificuldades, pedindo aconselhamentos e até mesmo para confessar seus
pecados. No começo ele não levava aquilo muito a sério, que mal haveria em dar esperança
a aqueles pobres homens?
Ele já não tinha mais tempo para as garimpagens, agora, ficava apenas no
grande pavilhão construído com o dinheiro de muitos de seus fanáticos
seguidores. Ele estava diferente, eu sei por que o conhecera há tanto tempo, e
havia uma grande diferença do jovem e alegre contador de histórias e o homem
que agora estava sempre bem vestido e limpo, o qual agora tinha um ar mais
misterioso e serio. Suas histórias agora eram mais sérias e assustadoras,
parece até que todas aquelas historias de terror que nos contara outrora eram
sinais de algo maior que estava para acontecer futuramente.
Não demorou a começar a falar sobre o fim dos tempos, ele agora julgava
as pessoas pela ganancia, e que mesmo com todo dinheiro do mundo, isso não
compraria um lugar no céu.
Era o ano de 1984, e uma grande leva de mineradores estavam desanimados,
já não se encontrava vestígio algum de ouro ou outras preciosidades nas
escavações. Parecia que realmente, como havia sido pregada pelo jovem, a
ganancia estava acabando com a vida de muitos. Casos e mais casos de mortes por
dividas, muitos cainham em uma depressão, e adoentados, partiam enfermos ou
perdiam suas vidas por ali mesmo. Oque antes era motivo de felicidade, agora
era impossível de se compartilhar a informação de que encontrara algo. Estava
tornando-se comum o roubo com morte aqueles que encontravam algo.
Eram tempos difíceis, o que mantinha as pessoas na linha era a fé que
depositavam na nova religião criada pelo mestre filósofo. Foi então que uma
noite, após um discurso hora incentivador, hora assustador, ele me pedira para
aguardar que tinha de conversar comigo.
Esperei por um longo tempo até que ele despedia-se de seus fieis, mais
ele estava mais sério que de costume. Por fim, me chamara para uma sala ao lado
do grande salão, e sem mais delongas, foi me questionando.
-Tempos difíceis se aproximam meu velho amigo, você já ha de ter
percebido, mais estamos prestes a enfrentar o caos aqui. O governo está
insistindo em apoderar-se das terras, e seremos obrigados por fim a
abandonarmos tudo isso.
Ele estava com ar de preocupado, mais sabia que não era pelo minério,
até porque há tempos ele havia parado de escavar. Desviou o olhar para uma
pequena janela que dava para o grande vale, estava uma lua cheia linda, a qual
fazia da escuridão quase um dia lá fora.
-Vê tudo isso? Se deixar esses fanáticos chegarão a china de tanto
cavar. Ele ri.
Por um momento consegui ver no seu sorriso o jovem alegre que costumava
beber goles da amarga cachaça a beira da fogueira, despreocupado com o futuro.
Ele abre uma gaveta trancafiada a chave, e do mesmo tira uma pequena
caixa de madeira. Olha fixamente em meus olhos cansados do longo dia de
escavação, já pedindo por uma boa noite de sono.
-Tome. Quero que assim que nascer o sol, parta daqui e vá buscar sua
família. Você não terá grandes chances se for morar em uma cidade grande, então
quero que compre uma chácara seja lá onde desejar, e que tenha uma vida boa e
direita.
Largou em minha calejada mão algumas pequenas pedras de ouro e alguns
diamantes ainda sujos e virgens. Fiquei pasmo. Por certo ele tinha muito mais
de onde aquilo veio. Estava confuso e alegre ao mesmo tempo, ninguém jamais em
sua vida havia me dado nada, e como já conhecia o ditado, nada era de graça
nesse mundo de Deus.
-Por que isso mestre?
Ele riu novamente, eu nunca o chamara de mestre apesar de todos o
fizessem. Fiquei por certo envergonhado, parecia-me um puxa saco.
-As coisas estão ficando difíceis aqui, não demora a minha partida
também. Eu já o teria feito meu velho amigo mais ainda não sei como o fazer.
Meus fieis há tempos doam-me muito dinheiro, e não vou negar que cai na
tentação de partir daqui a tempos. Mais cada dia que passava a ganancia e o
peso na consciência não me o deixara fazer isso.
Eu ainda tenho algum tempo, para pensar em que fazer, se distribuo esse
dinheiro entre meus fiéis, ou seja lá o que tiver que fazer.
Eu estava perplexo, mesmo sendo um cara desinformado e pouco estudado,
sabia das coisas da vida, e aquilo não parecia correto. Mais quem sou eu para
julga-lo? Antes que pudesse falar algo, ele me levanta de onde eu estava
sentado e me dá um forte abraço.
-Vá em paz meu amigo, que Deus lhe ajude e proteja.
Não consegui falar palavra alguma, tão pouco consegui pregar meu olho
para dormir. Não havia sono nem cansaço mais, eu estava triste por partir,
preocupado por alguém desconfiar do que eu possuía e ser morto, e com uma
alegria como há anos quando ficara sabendo da corrida pelo ouro e pusera meus
pés ali pela primeira vez.
Mal o dia amanheceu, e eu parti, dei a desculpa que não estava me
sentindo bem e que teria de ir ao hospital, até porque estava mesmo com
olheiras horrendas e aspecto de doente. Parti então, e fiz como meu velho amigo
mandara, peguei minha família, comprei uma fazenda com gado e plantações de
grãos no mato grosso, e cá estou.
Todas as noites me pergunto como teria sido se ele não tivera me
ajudado, o que seria de mim ou de meus familiares, qual destino estivera
reservado para mim. Estamos no final de 1989, vi no tele jornal que todos estão
abandonando serra pelada, já não encontram nada por lá. Nunca havia contando a
real historia de como ficara rico ou do grande filósofo que fascinava com suas
histórias.
Deve estar se perguntando, o que de fato aconteceu a o mestre filósofo.
Pois bem, não sei ao certo, pois surgiram várias versões para o ocorrido, mais
a que acredito ser a verdadeira deu-se da seguinte maneira.
Em certa noite, descrentes de seu futuro inserto, alguns planejaram a
morte do jovem. Invadiram o pavilhão à noite, e não eram poucos, vários deles.
Saquearam e destruíram, adentraram o quarto do jovem mestre e o assassinaram
ali mesmo em sua cama, dezenas de facadas desferidas no pobre. Dizem que o
mesmo si quer reagiu, teve uma morte lenta e triste, e nada digna.
Lembro que saiu algo na época nos jornais, nada especial obviamente.
Mais posso imaginar o sofrimento de todos seus fieis a verem em chamas o grande
pavilhão, e dentro dele o corpo daquele que muito lhes ajudara. Até sonhei por
varias noites com o ocorrido, eu estava lá, parado em frente, imóvel observando
tudo. Era uma bagunça sem tamanho, pessoas correndo com baldes de água, muito
desespero e lagrimas. As chamas rasgavam a escuridão da noite, clareando a
mansidão do vale, uma tristeza sem tamanho.
Gosto dessa versão da historia, prefiro assim. Ele morreu como mártir.
Aborrece-me pensar que talvez ele mesmo tivesse posto fogo, e fugido na calada
da noite com a fortuna que havia arrecadado. Um corpo jamais fora encontrado
entre os destroços, até por que as autoridades nem se preocuparam em fazer
alguma busca detalhada, tão pouco o importava. Mais correu a lenda que sem um
corpo, reforçava mais ainda a fé que o mestre havia sido arrebatado por anjos
celestiais. Crendices do povo.
Seja qual foi o final, essa é a história do jovem sonhador, que hora
ambicioso, hora humilde. O contador de histórias que ficou famoso, que criou
raízes e seguidores. Aquele que muitos dariam suas vidas sem pensar se ele o
pedisse. É incrível o poder que palavras tem na vida das pessoas. Muitos nascem
e morrem sem um propósito, e outros, sem perceber, salvam vidas. Afirmo isso,
ele me salvou dando a oportunidade de trilhar uma vida diferente, e penso em
tantos outros que ele tenha ajudado. Não foi um santo e tão pouco queria ser
tratado assim, mais fez a diferença para milhares de pessoas, e a intenção é
que vale. Deixo aqui essas palavras para você, meu amigo, meu mestre. E espero
que não leia essas palavras um dia, e se ler, saiba que agradeço por tudo,
parti aquela noite sem proferir palavra alguma e isso me dá certo remorso.
E se está realmente morto, que assim procuro acreditar, que esteja em
paz, e saiba que seus fieis ainda rezam por ti e um dia vamos nos encontrar
novamente em algum outro plano, para que conte suas fascinantes e incontáveis
histórias de sua própria boca.
Obrigado por tudo, de seu primeiro discípulo, Jorge.
Outubro, 21 de 1899.
Rogue - AS -

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